15.9.07

Silêncio

E às vezes calo. Mas calo não como quando a alma se faz silêncio, e rio, e transborda; calo como a árvore que se curva ante a inevitabilidade do inverno, como as cores estéreis do deserto, como uma pobre criança abandonada.


Calo no silêncio oco das palavras que não valem à pena serem ditas. No silêncio estúpido e bestial que permeia o burburinho da multidão. Calo no silêncio inútil do cansaço, na impotência do fracasso, na raiva calada e doída da derrota repetida.


Às vezes calo num silêncio feio, deforme, aleijado; silêncio que não é beleza nem contemplação, mas ausência. Calo porque a luz não existe, e os ecos fecundos se apagam. Calo ante a verdade inegável da fraqueza de minhas pernas, de meus dedos enregelados, ferrenho silêncio concreto e sólido.


Nesse silêncio inerte e duro, não há esperança possível. Não há amanhã ou ontem, nem vislumbre do caminho. Quando me calo nesse silêncio frio, metálico, diamantino, imutável, desesperado, as palavras são vãs. Já não há versos, nem poesia; a beleza e a fé fenecem, segadas pela lâmina impiedosa e imisericorde de um silêncio morto.


Às vezes me calo, e tudo se aquieta, em espera. Silêncio, silêncio. Ausência de coisa nenhuma.
Vida suspensa. Silêncio, silêncio. Nada há. Um segundo pairando, imortalizado na eternidade.
Silêncio, silêncio. Não tempo, não existência, não esperança. Nada há. Silêncio.

Às vezes me calo, e sinto frio na alma.

Um comentário:

Lu Lopes disse...

Esse silêncio é aquele que a gente faz não porque escolhe, mas porque se é submetido para poder “agüentar os trancos na vida”!
É aquele silêncio “inevitável”, como diz o texto. Que a gente luta no começo porque não quer silenciar, mas quando cedemos, quando entramos no standby, sempre temos a prova final de que calar vale a pena.
“A raiva calada e doída da derrota repetida”, cansa muito; mas aí quando a alma catalisa os efeitos das derrotas, novas e melhores forças surgem!
Quando o silêncio é pela “ausência”, é difícil.
Esse calar dá “frio na alma mesmo” – mas no outro dia, sempre tem a possibilidade de Soooooooool !!!!! Sempre tem a possibilidade do Sol que vai aquecer a alma de novo.

Beijooooo
Lu